A
literatura, em diferentes épocas, tem sido um espaço privilegiado para explorar
o sofrimento humano, em especial quando este não se deixa reduzir a
diagnósticos clínicos ou explicações racionais. Obras como Bartleby, o
escrivão (1853), de Herman Melville, e A metamorfose (1915), de
Franz Kafka, são exemplares nesse sentido: ambas apresentam personagens cuja
existência é marcada por um esgotamento subjetivo radical, pela recusa da
produtividade e pela exclusão social. Lidas em conjunto, essas narrativas se
tornam poderosas metáforas da depressão e da doença mental, antecipando debates
contemporâneos sobre trabalho, alienação e sofrimento psíquico.
·
O silêncio e a recusa em Bartleby
Bartleby,
funcionário de um escritório de advocacia em Wall Street, é apresentado como um
copista meticuloso e eficiente, mas que progressivamente passa a se recusar a
executar tarefas, respondendo sempre com a frase enigmática: "Preferiria
não o fazer." Essa resposta, repetida à exaustão, não é uma simples
rebeldia, mas um gesto de esvaziamento: Bartleby não justifica, não negocia,
não explica. Ele apenas recusa. Sua negação não é violenta, mas passiva,
silenciosa, e justamente por isso desconcertante.
Essa
recusa pode ser lida como uma metáfora da depressão: um estado em que a energia
vital é drenada, em que até ações simples parecem impossíveis. A frase de
Bartleby traduz a lógica depressiva do "não consigo", travestida em
um "não quero". Ao não se engajar mais no trabalho, ele encarna o
colapso de uma subjetividade que não encontra sentido na repetição mecânica da
vida burocrática.
Melville
escreve em pleno século XIX, quando o capitalismo moderno e a burocracia
estavam em plena expansão. Nesse contexto, Bartleby surge como a antítese do
ideal de produtividade. Seu silêncio é um sintoma de um mal-estar profundo, mas
também uma denúncia: há algo na vida regida exclusivamente pelo trabalho que
adoece. O advogado-narrador, incapaz de compreender a dimensão subjetiva do
sofrimento do funcionário, tenta resolver a situação apenas pela lógica prática
e econômica. Essa incompreensão ecoa ainda hoje: quantos gestores e
instituições não enxergam a depressão como preguiça ou falta de vontade, em vez
de reconhecer a complexidade do sofrimento psíquico?
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A transformação e o isolamento em A
metamorfose
Em
A metamorfose, Kafka apresenta Gregor Samsa, um caixeiro-viajante que,
ao acordar uma manhã, descobre-se transformado em um inseto monstruoso. A
narrativa acompanha a degradação física e psíquica de Gregor, bem como a reação
de sua família, que passa da preocupação inicial à rejeição e à repulsa.
Se
em Melville a metáfora da depressão aparece como recusa silenciosa, em Kafka
ela se concretiza como metamorfose grotesca. A doença mental é figurada como
uma transformação que aliena o sujeito do convívio humano: Gregor já não é
reconhecido como pessoa, mas como fardo. Sua nova condição o impede de
trabalhar, e essa impossibilidade o condena à exclusão dentro do espaço
familiar.
A
imagem do inseto é poderosa justamente por ser incomunicável. Gregor sente e
pensa como humano, mas já não pode expressar-se de modo inteligível. Essa
ruptura na comunicação é um dos aspectos mais cruéis da depressão: o sujeito
não consegue traduzir seu sofrimento em palavras compreensíveis, e a sociedade,
por sua vez, responde com silêncio ou afastamento. Assim, Kafka dramatiza a
solidão radical do adoecimento mental, em que o indivíduo não apenas sofre, mas
também perde a possibilidade de ser reconhecido como sujeito.
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Depressão como não-vida: a morte em
vida
Tanto
Bartleby quanto Gregor encarnam um estado de "não-vida". O primeiro
retira-se gradualmente do mundo, deixando de trabalhar, de falar e até de se
alimentar, até morrer no cárcere. O segundo, embora continue existindo
biologicamente como inseto, já não participa do mundo humano: está excluído do
trabalho, da sociabilidade, do afeto. Ambos encenam uma forma de morte em vida,
metáfora recorrente nas descrições literárias da depressão.
A
doença mental não aparece como explosão ou delírio, mas como apagamento.
Bartleby não grita, não luta; apenas cessa de agir. Gregor não encontra um
caminho de resistência; apenas suporta até definhar. Nessa lógica, Melville e
Kafka expõem não só o sofrimento subjetivo, mas também a indiferença social
diante dele: os colegas de Bartleby o evitam, a família de Gregor o rejeita. O
deprimido, assim, é duplamente punido: sofre por dentro e é marginalizado por
fora.
·
Trabalho, alienação e adoecimento
Outro
ponto em comum é a relação entre trabalho e adoecimento. Bartleby é um escrivão
cujo ofício consiste em copiar mecanicamente textos jurídicos, sem criação, sem
autoria. Gregor é um vendedor que vive em função das viagens e das metas
financeiras, sem tempo para si mesmo. Ambos simbolizam figuras esmagadas pelo
peso da rotina produtiva.
A
recusa de Bartleby e a metamorfose de Gregor revelam os efeitos de um sistema
que reduz o ser humano a sua função laboral. Quando a máquina produtiva não
consegue mais extrair eficiência desses indivíduos, eles são descartados. Essa
lógica dialoga com o que, no século XX, pensadores como Michel Foucault ou
Erving Goffman observaram sobre a patologização e a exclusão dos “improdutivos”
e “inadequados” ao modelo social.
Assim,
Melville e Kafka antecipam uma crítica ao capitalismo que ainda hoje ressoa: a
depressão não é apenas uma questão individual, mas também social, produto de
condições de vida que isolam, exigem desempenho constante e negam o direito ao
descanso ou ao fracasso.
·
O olhar do outro e a impossibilidade
de compreensão
Outro
aspecto fundamental é a perspectiva narrativa. Em Bartleby, a história é
contada pelo patrão, que observa o funcionário com mistura de curiosidade,
irritação e compaixão, mas nunca consegue realmente compreender seu gesto. Em A
metamorfose, acompanhamos a consciência de Gregor, mas vemos constantemente
a reação horrorizada da família, que o trata como fardo.
Essa
diferença revela dois modos de incompreensão social diante da doença mental: no
caso de Bartleby, o olhar externo que nunca acessa o interior do sofrimento; no
caso de Gregor, o olhar interno que percebe sua humanidade, mas não consegue
transmiti-la ao mundo. Em ambos, há uma barreira intransponível entre sujeito e
sociedade. Essa incomunicabilidade é talvez a metáfora mais precisa da
depressão: trata-se de uma experiência intensamente subjetiva, mas que
dificilmente encontra reconhecimento ou empatia no outro.
·
Depressão como resistência e denúncia
É
importante notar, contudo, que tanto Bartleby quanto Gregor podem ser lidos não
apenas como vítimas, mas como figuras de resistência. A recusa de Bartleby,
ainda que silenciosa, é uma negação da lógica produtivista. Sua obstinação em
“não fazer” é também um protesto contra uma vida reduzida ao trabalho. Da mesma
forma, a transformação de Gregor, ao torná-lo incapaz de sustentar
financeiramente a família, expõe a dependência dos outros em relação ao seu
sacrifício e desmonta a normalidade aparentemente estável do lar.
Nessa
chave, a depressão, embora devastadora, pode ser compreendida como sintoma
social: um corpo que não suporta mais as pressões do sistema e, ao colapsar,
revela suas contradições. Tanto Melville quanto Kafka parecem intuir que o
adoecimento mental não é apenas um drama individual, mas também um espelho
incômodo da sociedade que o produz.
·
Conclusão:
Bartleby,
o escrivão e A metamorfose são narrativas distintas em
estilo, tempo e contexto, mas convergem como metáforas potentes da depressão e
da doença mental. Bartleby encarna a recusa silenciosa, a desistência que
confunde os que ainda operam dentro da lógica produtiva. Gregor, por sua vez,
corporifica a exclusão total, a transformação que rompe a comunicação e gera
repulsa. Ambos, porém, revelam o mesmo destino: a marginalização do sujeito
adoecido e a incapacidade da sociedade em lidar com ele.
Ao
ler esses textos como metáforas da depressão, podemos reconhecê-los não apenas
como grandes obras literárias, mas também como diagnósticos poéticos de uma
experiência humana universal: o esgotamento, a solidão e o silenciamento de
quem sofre. A literatura, nesse sentido, oferece não uma cura, mas uma escuta —
um espaço em que a dor encontra forma e, ao ser compartilhada, ganha dignidade.
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