24 setembro, 2025

Bartleby e Gregor Samsa: metáforas da depressão e do adoecimento psíquico


Gregor Samsa: um burnoutado. Como eu vi a Síndrome de Burnout em A… | by  João Vitor Marochi de Oliveira | Medium

 

A literatura, em diferentes épocas, tem sido um espaço privilegiado para explorar o sofrimento humano, em especial quando este não se deixa reduzir a diagnósticos clínicos ou explicações racionais. Obras como Bartleby, o escrivão (1853), de Herman Melville, e A metamorfose (1915), de Franz Kafka, são exemplares nesse sentido: ambas apresentam personagens cuja existência é marcada por um esgotamento subjetivo radical, pela recusa da produtividade e pela exclusão social. Lidas em conjunto, essas narrativas se tornam poderosas metáforas da depressão e da doença mental, antecipando debates contemporâneos sobre trabalho, alienação e sofrimento psíquico.

·        O silêncio e a recusa em Bartleby

Bartleby, funcionário de um escritório de advocacia em Wall Street, é apresentado como um copista meticuloso e eficiente, mas que progressivamente passa a se recusar a executar tarefas, respondendo sempre com a frase enigmática: "Preferiria não o fazer." Essa resposta, repetida à exaustão, não é uma simples rebeldia, mas um gesto de esvaziamento: Bartleby não justifica, não negocia, não explica. Ele apenas recusa. Sua negação não é violenta, mas passiva, silenciosa, e justamente por isso desconcertante.

Essa recusa pode ser lida como uma metáfora da depressão: um estado em que a energia vital é drenada, em que até ações simples parecem impossíveis. A frase de Bartleby traduz a lógica depressiva do "não consigo", travestida em um "não quero". Ao não se engajar mais no trabalho, ele encarna o colapso de uma subjetividade que não encontra sentido na repetição mecânica da vida burocrática.

Melville escreve em pleno século XIX, quando o capitalismo moderno e a burocracia estavam em plena expansão. Nesse contexto, Bartleby surge como a antítese do ideal de produtividade. Seu silêncio é um sintoma de um mal-estar profundo, mas também uma denúncia: há algo na vida regida exclusivamente pelo trabalho que adoece. O advogado-narrador, incapaz de compreender a dimensão subjetiva do sofrimento do funcionário, tenta resolver a situação apenas pela lógica prática e econômica. Essa incompreensão ecoa ainda hoje: quantos gestores e instituições não enxergam a depressão como preguiça ou falta de vontade, em vez de reconhecer a complexidade do sofrimento psíquico?

 

BARTLEBY, O ESCRIVÃO redesign book on Behance

 

·        A transformação e o isolamento em A metamorfose

Em A metamorfose, Kafka apresenta Gregor Samsa, um caixeiro-viajante que, ao acordar uma manhã, descobre-se transformado em um inseto monstruoso. A narrativa acompanha a degradação física e psíquica de Gregor, bem como a reação de sua família, que passa da preocupação inicial à rejeição e à repulsa.

Se em Melville a metáfora da depressão aparece como recusa silenciosa, em Kafka ela se concretiza como metamorfose grotesca. A doença mental é figurada como uma transformação que aliena o sujeito do convívio humano: Gregor já não é reconhecido como pessoa, mas como fardo. Sua nova condição o impede de trabalhar, e essa impossibilidade o condena à exclusão dentro do espaço familiar.

A imagem do inseto é poderosa justamente por ser incomunicável. Gregor sente e pensa como humano, mas já não pode expressar-se de modo inteligível. Essa ruptura na comunicação é um dos aspectos mais cruéis da depressão: o sujeito não consegue traduzir seu sofrimento em palavras compreensíveis, e a sociedade, por sua vez, responde com silêncio ou afastamento. Assim, Kafka dramatiza a solidão radical do adoecimento mental, em que o indivíduo não apenas sofre, mas também perde a possibilidade de ser reconhecido como sujeito.

Simple Bedroom Drawing

·        Depressão como não-vida: a morte em vida

Tanto Bartleby quanto Gregor encarnam um estado de "não-vida". O primeiro retira-se gradualmente do mundo, deixando de trabalhar, de falar e até de se alimentar, até morrer no cárcere. O segundo, embora continue existindo biologicamente como inseto, já não participa do mundo humano: está excluído do trabalho, da sociabilidade, do afeto. Ambos encenam uma forma de morte em vida, metáfora recorrente nas descrições literárias da depressão.

A doença mental não aparece como explosão ou delírio, mas como apagamento. Bartleby não grita, não luta; apenas cessa de agir. Gregor não encontra um caminho de resistência; apenas suporta até definhar. Nessa lógica, Melville e Kafka expõem não só o sofrimento subjetivo, mas também a indiferença social diante dele: os colegas de Bartleby o evitam, a família de Gregor o rejeita. O deprimido, assim, é duplamente punido: sofre por dentro e é marginalizado por fora.

·        Trabalho, alienação e adoecimento

Outro ponto em comum é a relação entre trabalho e adoecimento. Bartleby é um escrivão cujo ofício consiste em copiar mecanicamente textos jurídicos, sem criação, sem autoria. Gregor é um vendedor que vive em função das viagens e das metas financeiras, sem tempo para si mesmo. Ambos simbolizam figuras esmagadas pelo peso da rotina produtiva.

A recusa de Bartleby e a metamorfose de Gregor revelam os efeitos de um sistema que reduz o ser humano a sua função laboral. Quando a máquina produtiva não consegue mais extrair eficiência desses indivíduos, eles são descartados. Essa lógica dialoga com o que, no século XX, pensadores como Michel Foucault ou Erving Goffman observaram sobre a patologização e a exclusão dos “improdutivos” e “inadequados” ao modelo social.

Assim, Melville e Kafka antecipam uma crítica ao capitalismo que ainda hoje ressoa: a depressão não é apenas uma questão individual, mas também social, produto de condições de vida que isolam, exigem desempenho constante e negam o direito ao descanso ou ao fracasso.

·        O olhar do outro e a impossibilidade de compreensão

Outro aspecto fundamental é a perspectiva narrativa. Em Bartleby, a história é contada pelo patrão, que observa o funcionário com mistura de curiosidade, irritação e compaixão, mas nunca consegue realmente compreender seu gesto. Em A metamorfose, acompanhamos a consciência de Gregor, mas vemos constantemente a reação horrorizada da família, que o trata como fardo.

Essa diferença revela dois modos de incompreensão social diante da doença mental: no caso de Bartleby, o olhar externo que nunca acessa o interior do sofrimento; no caso de Gregor, o olhar interno que percebe sua humanidade, mas não consegue transmiti-la ao mundo. Em ambos, há uma barreira intransponível entre sujeito e sociedade. Essa incomunicabilidade é talvez a metáfora mais precisa da depressão: trata-se de uma experiência intensamente subjetiva, mas que dificilmente encontra reconhecimento ou empatia no outro.

·        Depressão como resistência e denúncia

É importante notar, contudo, que tanto Bartleby quanto Gregor podem ser lidos não apenas como vítimas, mas como figuras de resistência. A recusa de Bartleby, ainda que silenciosa, é uma negação da lógica produtivista. Sua obstinação em “não fazer” é também um protesto contra uma vida reduzida ao trabalho. Da mesma forma, a transformação de Gregor, ao torná-lo incapaz de sustentar financeiramente a família, expõe a dependência dos outros em relação ao seu sacrifício e desmonta a normalidade aparentemente estável do lar.

Nessa chave, a depressão, embora devastadora, pode ser compreendida como sintoma social: um corpo que não suporta mais as pressões do sistema e, ao colapsar, revela suas contradições. Tanto Melville quanto Kafka parecem intuir que o adoecimento mental não é apenas um drama individual, mas também um espelho incômodo da sociedade que o produz.

 

·        Conclusão:

Bartleby, o escrivão e A metamorfose são narrativas distintas em estilo, tempo e contexto, mas convergem como metáforas potentes da depressão e da doença mental. Bartleby encarna a recusa silenciosa, a desistência que confunde os que ainda operam dentro da lógica produtiva. Gregor, por sua vez, corporifica a exclusão total, a transformação que rompe a comunicação e gera repulsa. Ambos, porém, revelam o mesmo destino: a marginalização do sujeito adoecido e a incapacidade da sociedade em lidar com ele.

Ao ler esses textos como metáforas da depressão, podemos reconhecê-los não apenas como grandes obras literárias, mas também como diagnósticos poéticos de uma experiência humana universal: o esgotamento, a solidão e o silenciamento de quem sofre. A literatura, nesse sentido, oferece não uma cura, mas uma escuta — um espaço em que a dor encontra forma e, ao ser compartilhada, ganha dignidade.

 







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