O conceito de arquétipo em Jung refere-se a imagens primordiais do inconsciente coletivo que estruturam a experiência humana em diferentes culturas e épocas. Entre os muitos arquétipos identificados por Jung, um dos mais intensos e perturbadores é o arquétipo do devoramento. Ele está presente em mitologias, contos de fadas e sonhos, frequentemente associado a figuras monstruosas que devoram, engolem ou assimilam outros seres. Esse motivo simbólico está relacionado tanto ao medo da aniquilação quanto ao desejo de fusão -- a perda da individualidade em um todo maior. Na série Hannibal (2013–2015), essa dinâmica se manifesta de forma visceral na relação entre Will Graham e Hannibal Lecter, um vínculo que oscila entre sedução, amor, destruição e fusão simbólica.
O arquétipo do devoramento em Jung aparece ligado a forças inconscientes que podem se apresentar tanto de forma negativa (destrutiva, regressiva, engolindo o ego imaturo) quanto positiva (transformadora, integradora, levando a uma ampliação da consciência). Em mitos, a cena clássica é a da criança devorada pelo monstro, mas também a do herói que é engolido para, em seguida, renascer. O devoramento, nesse sentido, é um rito simbólico de passagem: ser engolido pelo inconsciente, confrontar a escuridão interior e, ao emergir, estar transformado.
Na relação entre Will e Hannibal, esse arquétipo é encenado não apenas de maneira figurativa, mas também literal. Hannibal, como canibal, devora seus semelhantes de forma ritualística, transformando o ato de comer em uma experiência estética e filosófica. Contudo, o verdadeiro objeto de seu desejo não é apenas a carne, mas a psique de Will. Hannibal deseja "devorá-lo" em um sentido mais profundo: assimilar sua mente, dissolver as fronteiras que separam ambos, formar uma espécie de unidade psíquica e existencial. Esse desejo ultrapassa a esfera da violência e alcança o território do amor -- um amor que, em sua lógica, só pode ser consumado através do devoramento.
Will, por sua vez, é simultaneamente presa e cúmplice. Seu dom empático o coloca em posição de vulnerabilidade diante de Hannibal, mas também lhe dá acesso a uma compreensão íntima do médico. A cada interação, Will é tragado pelo universo mental de Hannibal, confrontando-se com suas próprias pulsões sombrias, seus desejos reprimidos e sua capacidade para a violência. O devoramento, portanto, não é unilateral: Hannibal deseja consumir Will, mas também é tragado pelo poder de Will, por sua alteridade fascinante e pela possibilidade de encontrar nele um reflexo de si. Esse jogo de atração e repulsa, de fusão e diferenciação, constitui o núcleo da relação romântica dos dois.
Do ponto de vista junguiano, o arquétipo do devoramento está explicitamente ligado ao processo de individuação. Para que o ego se desenvolva e se torne mais pleno, ele precisa confrontar as forças inconscientes que ameaçam dissolvê-lo. Will, ao ser constantemente colocado diante do “monstro” Hannibal, encarna esse dilema. Hannibal é o devorador arquetípico: sofisticado, irresistível e, ao mesmo tempo, mortal. A tentação de entregar-se a ele é o convite para abandonar os limites do ego e perder-se na fusão simbólica. Mas é justamente nesse risco que reside a possibilidade de transformação: o encontro com o devorador pode levar ao aniquilamento ou à transcendência.
A série sugere que o romance entre Will e Hannibal só pode ser compreendido sob essa lógica arquetípica. Eles não vivem um amor “humano” no sentido convencional, mas um amor que se enraíza na psique profunda, no inconsciente coletivo, naquilo que é primal e mítico. O banquete -- imagem recorrente na série -- é a metáfora perfeita desse vínculo. Comer é incorporar, transformar o outro em parte de si. Quando Hannibal serve pratos refinados feitos de carne humana, o ato grotesco é recoberto por uma estética sublime, revelando que o devoramento não é apenas destruição, mas também uma forma de comunhão. Na relação com Will, Hannibal deseja realizar esse banquete psíquico: incorporar Will, mas também ser incorporado por ele.
Will, por sua vez, resiste. Sua luta é a luta do ego diante da sombra: até que ponto se deixar consumir? Até que ponto abraçar o desejo de fusão? A resistência de Will não é apenas ética ou moral, mas ontológica: trata-se de preservar sua identidade diante do abismo devorador que Hannibal representa. Contudo, essa resistência não elimina o desejo. Ao contrário, o desejo cresce justamente da tensão entre repulsa e atração, entre medo da aniquilação e anseio de entrega. O romance entre eles, portanto, é marcado por essa dialética: amar significa devorar e ser devorado.
Um aspecto interessante é que, em Jung, o devoramento também pode ser interpretado como um símbolo materno primitivo -- a “grande mãe” que devora os filhos, um retorno ao útero que ameaça dissolver a individualidade. Essa leitura ilumina o modo como Hannibal funciona na psique de Will: ele é, ao mesmo tempo, mentor, amante e figura parental invertida. Ao propor a Will que abandone sua moralidade e aceite sua verdadeira natureza, Hannibal convida-o a um retorno regressivo, mas também a uma nova gestação: renascer como algo além do humano, além do convencional. Esse convite ecoa o mito do herói que precisa ser engolido para emergir transformado. Will, ao mergulhar nessa relação, não apenas corre o risco de ser destruído, mas também tem a chance de nascer de novo.
O desfecho da série -- com os dois caindo juntos do penhasco -- é a culminância desse arquétipo. Trata-se de uma cena que não pode ser lida apenas como destruição, mas como consumação. A queda é o momento em que ambos se entregam ao devoramento mútuo: não há mais resistência, não há mais fronteiras. O penhasco é o abismo do inconsciente, e saltar juntos é a realização simbólica do amor devorador. Não é a vitória do ego sobre o inconsciente, mas a dissolução das fronteiras em uma comunhão arquetípica. Nesse sentido, a cena final não é trágica, mas mística: é o ápice de uma união que só poderia se dar pela destruição dos limites individuais.
Assim, o romance entre Will e Hannibal em Hannibal pode ser interpretado como uma dramatização do arquétipo do devoramento em Jung. Mais do que um simples jogo de manipulação psicológica ou uma relação homoerótica subversiva, o vínculo entre eles encarna o desejo humano mais arcaico: ser devorado e, ao mesmo tempo, devorar; perder-se para encontrar-se; amar até a aniquilação. O devoramento, nesse caso, é metáfora do amor absoluto -- um amor que não se contenta com a distância ou a alteridade, mas que exige fusão total, mesmo que isso signifique o fim da individualidade.
Em última análise, a série propõe uma reflexão sobre o que significa amar no nível mais profundo do inconsciente. Se todo amor envolve, em alguma medida, o desejo de fusão, então Will e Hannibal representam o arquétipo desse desejo em sua forma mais radical. Seu romance é a imagem arquetípica do devoramento: bela, terrível e inevitável. Como no mito, resta ao espectador decidir se a queda do penhasco é destruição ou renascimento. Talvez seja ambos. Afinal, no inconsciente, devorar e ser devorado são apenas duas faces da mesma experiência transformadora.
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