25 setembro, 2025

John Walker: O personagem mais injustamente odiado da Marvel

 


    O Universo Cinematográfico da Marvel é conhecido por criar personagens com camadas, que geram discussões apaixonadas entre os fãs. Ainda assim, poucos sofreram tanto julgamento precipitado quanto John Walker, apresentado em Falcão e o Soldado Invernal como o novo Capitão América. Desde sua primeira aparição, ele foi alvo de ódio, memes e rejeição quase automática tanto do público quanto da própria narrativa que fazia parte, antes mesmo de existir a chance de enxergar além da superfície. A verdade é que John Walker não é o “vilão” que muitos pintaram, e sim um personagem profundamente humano, falho, complexo e até trágico — justamente por isso, um dos mais interessantes da Marvel atual.

         ★ John Walker em Falcão e o Soldado Invernal: um antagonista forçado e injustiçado

    Desde sua introdução no MCU, John Walker foi colocado como uma figura divisiva. Falcão e o Soldado Invernal tentou construir nele um antagonista, mas o roteiro frequentemente falha em sustentar essa visão. Na prática, Walker é retratado como alguém que, no início, só queria cumprir seu dever e ser digno do escudo que o governo lhe entregou. O problema é que a narrativa força constantemente o espectador a enxergá-lo como ameaça, ao mesmo tempo em que contraditoriamente o coloca em situações onde ele se mostra mais heróico do que aqueles que o rejeitam.

        ★ O peso impossível de ser o novo Capitão América

    Desde o momento em que o escudo foi passado para Walker pelo governo, o público já tinha decidido que não gostava dele. Mas é preciso parar e pensar: quem realmente conseguiria estar à altura de Steve Rogers? O Capitão América original não era apenas um herói; ele era um símbolo quase sagrado. Steve foi construído durante décadas como o ideal inatingível de moralidade, coragem e sacrifício. Substituí-lo nunca seria algo bem recebido.

    John Walker foi colocado em uma posição impossível. Ele não pediu para carregar esse fardo — ele foi escolhido por um sistema político que queria um rosto “perfeito” para representar os EUA. Desde o início, o público confundiu a decisão do governo com uma decisão pessoal de Walker, quando, na verdade, ele só tentou cumprir o papel que lhe foi dado.



       

        ★ O escudo não foi roubado

    Um detalhe muitas vezes ignorado é que John Walker não roubou o escudo. Ele não invadiu a casa de Sam, não tomou nada à força. Foi o próprio Sam que, voluntariamente, entregou o escudo ao governo, achando que não estava à altura do legado de Steve. Foi uma escolha consciente, motivada por dúvidas internas.

    Quando Walker aparece como “o novo Capitão América”, o ressentimento de Sam e Bucky parece projetar nele uma culpa que não é dele. Sam mudou de ideia, mas em vez de assumir as consequências disso, direciona sua frustração para Walker. É como culpar o sucessor pelo fato de você ter abdicado do papel em primeiro lugar. Isso já coloca Walker em uma posição injusta: condenado não por suas ações, mas pela falta de coragem de outro personagem em assumir o próprio lugar.

              ★ A cena polêmica: um julgamento injusto

    A principal fonte de ódio contra Walker vem de uma cena específica: o momento em que ele mata um inimigo em público, com o escudo. Sem dúvida, foi impactante e perturbador. Mas analisemos o contexto: Walker tinha acabado de perder seu parceiro e melhor amigo, Lemar Hoskins, morto durante uma luta brutal. Ele estava traumatizado, com raiva, e ainda sob o efeito do soro do super soldado. Foi uma explosão de dor, de vingança, e sim, de descontrole.

    Mas pergunte-se: quantos heróis do MCU já mataram inimigos em combate? Thor arrancou a cabeça de Thanos sem pestanejar. Wanda dizimou cidades inteiras. Natasha assassinava como parte da sua função. Até mesmo Steve, o tão exaltado Capitão, já matou muitos em batalhas. A diferença é que Walker foi filmado, no meio da rua, diante de civis e câmeras. Sua falha foi visível, gravada e julgada. A moralidade do ato não é muito diferente do que já vimos com outros heróis, mas a repercussão foi devastadora.

    Em outras palavras, Walker não foi o primeiro a perder o controle, mas foi o único condenado sem piedade.



        ★ Sam Wilson, o terapeuta sem empatia

    Outro ponto que incomoda profundamente é a forma como Sam Wilson trata Walker ao longo da série. Antes de ser herói, Sam trabalhava como terapeuta de veteranos de guerra. Ele lidava diariamente com homens e mulheres que voltavam traumatizados do campo de batalha, carregando cicatrizes emocionais profundas.

    E quem é John Walker senão um retrato perfeito desse veterano quebrado? Ele é alguém que seguiu ordens, sacrificou, foi condecorado, mas carrega consigo os traumas de guerra e a pressão constante de corresponder a ideais impossíveis. O Walker que vemos em tela é claramente um homem com estresse pós-traumático: impulsivo, instável, marcado por perdas e pela tentativa desesperada de manter controle.

    No entanto, em vez de reconhecer isso, Sam o rejeita. Não há uma cena sequer de verdadeira empatia de Sam em relação a Walker. Mesmo depois da morte brutal de Lemar — amigo de longa data de Walker e seu pilar emocional — Sam e Bucky não estendem uma mão, não tentam ajudar. Pelo contrário: eles partem para cima dele, literalmente o espancando, tirando à força o escudo de um homem em colapso emocional e o deixando lá desacordado.

    Isso é chocante justamente porque Sam mostra, repetidamente, empatia com Karli Morgenthau, a vilã da série. Karli mata inocentes em atentados terroristas várias vezes, e ainda assim Sam insiste em compreendê-la, dialogar e até defendê-la. Como explicar, então, que ele reserve compaixão para uma terrorista assassina, mas negue qualquer humanidade a um veterano traumatizado que, em muitos sentidos, precisava mais de ajuda do que de condenação?

       ★ A hipocrisia de Zemo

    O mesmo padrão se repete quando observamos como os heróis tratam Zemo em comparação com Walker. Zemo foi responsável por inúmeras mortes em Guerra Civil, incluindo o ataque que matou inocentes em Lagos e a manipulação que quase destruiu os Vingadores. Ainda assim, Sam e Bucky não só o soltam, como também trabalham lado a lado com ele, como se fosse um aliado confiável.

    Enquanto isso, recusam-se a cooperar com Walker, mesmo quando ele propõe unir forças contra uma ameaça em comum. Essa diferença de tratamento é gritante: Walker nunca traiu ninguém, nunca atacou os heróis por interesse pessoal, e mesmo assim é tratado como o inimigo. Já Zemo, um criminoso comprovado, recebe uma tolerância que Walker jamais teve.

          ★ A humanidade nas falhas

    Talvez a razão mais forte para defender John Walker seja justamente essa: ele é humano. O MCU muitas vezes nos entrega personagens quase perfeitos, que erram de formas que parecem calculadas para logo serem “redimidos”. Walker, por outro lado, erra de maneira crua, feia, desconfortável — como um ser humano real.

    Ele é arrogante, sim. Ele é explosivo, sim. Mas também é alguém que sente o peso do escudo, que se compara constantemente a Steve, que tenta, falha, tenta de novo, e não consegue se perdoar. Essa imperfeição é o que o torna fascinante. A arrogância é, na verdade, uma fachada para esconder suas inseguranças. Por trás do uniforme, ele é um homem com um passado marcado por guerras, ordens difíceis, traumas e a necessidade de sempre provar que é digno.

        ★ O paralelo com outros personagens amados

    É curioso como o público aceita facilmente as falhas de alguns personagens e rejeita completamente as de Walker. Tony Stark, por exemplo, era arrogante, egocêntrico, com um passado de armas que matou milhares — e ainda assim foi abraçado como um favorito desde cedo. Loki é literalmente um vilão em suas primeiras aparições, e hoje é um dos mais amados da Marvel. O próprio Bucky, que carrega um histórico de assassinatos como Soldado Invernal, foi perdoado e exaltado.

    Então, por que Walker não merece a mesma empatia? A resposta parece estar mais ligada ao fato de ele ter ousado “substituir” Steve Rogers do que a seus erros reais. Ele foi rejeitado antes mesmo de se apresentar por inteiro, e qualquer falha que cometeu foi amplificada dez vezes mais do que seria se fosse outro personagem.

        ★ A batalha final: Walker prova seu valor

    Se ainda restassem dúvidas sobre quem John Walker realmente é, sua atitude na batalha final deveria ter silenciado críticas. Quando chega o momento decisivo, Walker não vai atrás de glória, nem busca vingança contra Karli. Em vez disso, ele se arrisca para salvar inocentes presos em um caminhão em queda.

    Essa escolha é fundamental: Walker poderia ter perseguido os terroristas, buscado o reconhecimento de derrotá-los e provado ser o Capitão América que “merecia” o escudo. Mas não. Ele escolhe salvar vidas, sem nenhum benefício pessoal, sem garantias de reconhecimento. Esse é o gesto de um verdadeiro herói.

    E é revelador que, nesse mesmo momento, Sam já havia sido reconhecido oficialmente como Capitão América. Walker sabia que jamais teria de volta o título ou a glória. Ainda assim, ele fez a coisa certa. Isso mostra que, por trás de toda arrogância e instabilidade, Walker tem princípios sólidos — e a capacidade de colocar os outros acima de si mesmo.



        ★ Um antagonista forçado

    Todos esses pontos revelam um problema central: a série força Walker a ser um antagonista, mas suas ações não sustentam essa narrativa. O roteiro quer que o público o veja como rival de Sam e Bucky, mas para isso ignora ou distorce a realidade de suas atitudes.

    No início, Walker só queria ajudar. Ele oferece cooperação, tenta unir esforços, mostra-se disposto a lutar pelo mesmo objetivo. Mas a rejeição contínua de Sam e Bucky, motivada por questões emocionais ligadas ao luto por Steve, cria artificialmente a imagem de “inimigo”. Não é que Walker tenha agido contra eles — é que eles nunca quiseram aceitá-lo.

    O resultado é frustrante: ao invés de explorar o drama rico de um veterano traumatizado tentando se encaixar em um mundo que já tinha seu herói ideal, a série insiste em pintá-lo como obstáculo. Com isso, desperdiça a chance de construir um arco muito mais potente de empatia, redenção e amadurecimento.

        ★ O foco equivocado no escudo

    Outro problema narrativo de Falcão e o Soldado Invernal é a obsessão pelo escudo enquanto objeto. A trama inteira gira em torno de quem “merece” carregar aquele pedaço de metal, como se o valor de um herói estivesse ligado ao símbolo material.

    Isso contrasta diretamente com mensagens de outros filmes da Marvel. Em Thor: Ragnarok, por exemplo, Thor aprende que seu poder não vem do martelo, mas dele mesmo. O objeto é apenas uma ferramenta, não a essência do herói. No caso de Walker, porém, o escudo é tratado como um troféu que ele não merece — e isso simplifica demais a discussão. Walker não deveria ser medido pelo escudo, mas por suas escolhas. E, como vimos na batalha final, essas escolhas mostram heroísmo verdadeiro.



        ★ Conclusão

    Falcão e o Soldado Invernal tentou transformar John Walker em um antagonista, mas os fatos não sustentam essa narrativa. Ele não roubou o escudo — Sam o entregou. Ele não foi violento sem motivo — estava lidando com trauma e perda. Ele não deixou inocentes morrerem — escolheu salvá-los mesmo quando não havia nada a ganhar.

    Enquanto isso, os próprios protagonistas demonstraram seletividade em sua empatia, rejeitando Walker ao mesmo tempo em que mostravam compreensão por terroristas e assassinos. Essa contradição enfraquece a história e cria uma percepção injusta do personagem.

    No fim, John Walker é, acima de tudo, um personagem trágico. Ele perde tudo: o melhor amigo, a posição de Capitão América — que ele acreditava ser sua chance de finalmente fazer o bem, longe dos horrores que viveu na guerra — e até mesmo o reconhecimento do exército ao qual dedicou anos de serviço, acumulando traumas irreparáveis e ficando sem nem mesmo poder eventualmente receber aposentadoria pelo trabalho prestado. Walker não é um vilão, mas um veterano quebrado, que buscava redenção em um mundo que não estava disposto a oferecê-la.

    É claro que Sam e, principalmente, Bucky tinham seus motivos emocionais para rejeitá-lo. Eles ainda lidavam com a perda de Steve, e a presença de um “novo Capitão” parecia uma afronta. Mas suas atitudes diante de Walker — humilhação, agressividade e falta de empatia — não têm justificativa real, já que elas não são resultado de nada que Walker fez à eles. O próprio Steve Rogers, com seu senso de justiça e humanidade, jamais teria aprovado esse tipo de comportamento.

    Walker não é o inimigo que a série quis pintar. Ele é um retrato poderoso da falibilidade humana, da dor do trauma e da busca desesperada por propósito. E é justamente isso que o torna um dos personagens mais complexos, interessantes e injustiçados do MCU.






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